Japão: inspirador no uso de tecnologia para a vida

Estou há uma semana no Japão e não sei por onde começar a escrever algo que seja útil para leitores interessados em educação e no uso de tecnologia para educação. Escolhi então colocar alguns pontos e algumas impressões sobre facilidades proporcionadas por usos de tecnologia na vida que possam inspirar vocês, assim como estão expandindo meu pensamento.

Bem, estou aqui para estudar um pouco artes marciais (com meu parceiro de treino, professor de artes marciais e parceiro de vida <3) e para vivenciar um cotidiano tão diferente do meu (e imagino de muitos em nosso país). Estar aqui é muito caro, mas foi possível para mim através de uma promoção na passagem devido à Copa e por ter achado um lugar acolhedor e barato pelo airbnb. Para quem não conhece, acredito que este site está mudando o modo de viajar pelo mundo: você pode alugar um espaço na casa das pessoas e até mesmo colocar um seu para receber outras pessoas. O preço é muito mais em conta e você tem a oportunidade de experimentar diferentes cotidianos, hábitos e conhecer as pessoas em suas casas. Aqui, estou em uma clássica casa japonesa (durmo em um fouton no tatame, as portas e divisórias são de madeira e papel e o banheiro é tipicamente japonês), em que uma canadense vive há mais de 5 anos e está sendo incrível! Além de praticar meu inglês, ela gentilmente me dá dicas sobre coisas a fazer e me ensina sobre hábitos e etiquetas japonesas - isso não tem preço. Coincidentemente ela é professora de inglês em uma escola tradicional daqui e talvez ela consiga a permissão para eu presenciar a aula (se eu conseguir, descreverei em um post).

Gostaria de registrar aqui um ponto sobre casas japonesas: os sapatos são todos deixados na porta (isso mantém a casa muito limpa e muito, mas muito mais fácil de limpar - penso por que o mundo inteiro ainda não faz isso).

Duas coisas que mais me chamaram a atenção nesta semana (dentre inúmeras que não caberiam aqui) é a relação deles com a natureza e a limpeza das ruas e dos lugares. Sobre a limpeza: não há lixeiras ou latões nas ruas pois cada um cuida do seu próprio lixo. Há muitas máquinas de bebidas por todos os lugares (todos) e próximo a elas há lixos, ou seja, o dono da máquina cuida do seu lixo. Caso você saia de perto dela, é você quem deve cuidar dele. Além disso é muito incomum ver pessoas comendo ou bebendo enquanto andam ou dentro dos trens. Sobre a relação com a natureza (veja que o lixo já está já diretamente ligado à isso) tenho muito ainda a observar para tentar entender melhor pois o que tenho agora são impressões pessoais que com certeza estão distantes do modo de pensar das pessoas aqui. O Japão é um país em que menos de 20% do território é usado para habitação, ou seja, eles literalmente se expremem para morar. A princípio, isso me parecia muito esquisito e claustrofóbico, no entanto, ao presenciar a grandeza da natureza aqui presente e os usos inteligentíssimos de espaço aqui, pude perceber o quão esquisita sou eu na verdade. Nós, humanos, que precisamos da natureza e isso devia ser uma máxima!

Devido ao pequeno espaço, há muitas mudanças sociais e físicas aqui. As pessoas falam baixo para não incomodar as outras: passeei em ruas com milhares de pessoas e garanto que o ruído é baixo (com excessão dos Pachinkos, casas fechadas de jogos, que são uma experiência antropológica haha). Os estacionamentos são verticais - há andaimes e plataformas que parecem robôs e são poucas as casas que possuem estacionamento própro: isso incentiva o uso de bicicletas e de trens (que são ótimos!). Ah, há sempre estacionamento de bicicletas em volta das estações e são abertos, sim, você simplesmente deixa sua bicicleta e na volta pega. Não vi trabalhos de guarita em estacionamentos ou frentistas. Os espaços são muito bem aproveitados e há muitos (quando digo muitos, são realmente muitos) vasos de flores em cada frente de casa ou muretinha. Sei que há vários problemas aqui também e que há muito que eu preciso aprender e mudar meu modo de pensar na tentativa de entendimento, então por favor, não vejam isso como uma exaltação do diferente.

Uma situação interessante que vivi foi durante um jantar, em uma legítima casa de sashimis, com uma mesa globalizada (haha): nós dois brasileiros, dois suecos que estão visitando também e nossa, agora, amiga, canadense. Conversávamos sobre educação, sobre o gosto por ensinar e sobre métodos. Aqui no Japão a educação é mais presencial, eles acreditam (pelo o que entendi) nesse valor e não há problemas de deslocamento geográfico que justifique um e-learning. No entanto, há um movimento de professores mais jovens pelo blended learning (vejam só!) com a intenção de incentivar outras habilidades nos estudantes, proporcionar outros contextos educacionais e expandir possibilidades de conexão com o mundo. Fui informada de um professor que está traduzindo o curso do Coursera sobre isso e peguei seu twitter para tentar entrar em contato. Outro ponto da conversa interessante, foi quando conversávamos sobre as aulas de artes marciais e umas das pessoas na mesa citou ZPD como um dos métodos que ela observa nas aulas. Rapidamente, eu completei Vygotsky! :D e começamos a conversar e a fritar nossas mentes. Em seguida, passei meu e-mail aos suecos que gostariam de continuar essa conversa.

O que tenho a dizer é que a tecnologia nos aproxima e nos dá oportunidades de aprendizagem sem preço! Espero ter inspirado algumas pessoas.

Paula Furtado

Paula Furtado

Pesquisadora em Linguística Aplicada e Tecnologia pela Unicamp, professora e co-fundadora da Mupi: transitando entre campos tão diferentes, quero contribuir trazendo pontos e reflexões comuns

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